Nosce Te Ipsum: competências vitais para os conselhos

Artigo da 6ª edição do IBGC Dialoga reflete sobre aspectos sutis, mas essenciais para a evolução dos conselheiros

Se me pedissem para traduzir esse título sem pensar muito, eu provavelmente diria “Nós, Tu e o Ípsilon”. Antes que o leitor faça o mesmo, Nosce Te Ipsum é o adágio gravado no pórtico do Templo de Apolo, mais conhecido como Oráculo de Delfos. Sua tradução é “Conhece-te a ti mesmo”, máxima amplamente recomendada, mas de exígua execução.

Perguntas e mais perguntas

Desde que surgimos na Terra, procuramos respostas para nossas perguntas. Da elementar “o que é isso?” diante do fogo até “qual é o próximo passo?” após a detecção das ondas gravitacionais previstas por Einstein um século antes.

Inicialmente, nossas questões não eram conscientes. Sem uma linguagem estruturada, e diante do desconhecido, percebíamos apenas uma forte sensação física. Provavelmente uma descarga de adrenalina produzida por medo, confusão ou surpresa, como um bebê no início da vida.

Como naquele tempo, o instinto de sobrevivência prevalecia, nossas reações ao insólito eram primárias: correr, lutar, hesitar e talvez examinar, se o medo cedesse. Nada de grandes elaborações mentais.

Aliás, quem teria tempo de elaborar, frente aos desafios da vida no Paleolítico?

 

A resposta está lá fora

Não foi fácil para a humanidade sobreviver às eras anteriores à consciência. A inteligência engatinhava, as descobertas tecnológicas eram acidentais e, sem registro, o conhecimento humano facilmente se perdia.

Sem noção do potencial da inteligência e sem ter como explicar o inusitado, atribuíamos o conhecimento ao divino. Ou seja, não nos cabia ter respostas, e sim, suplicá-las a algum ser supremo.

Há um certo conforto em crer que alguém superior tem as respostas para nossas perguntas. Além de nos poupar a nada desprezível energia gasta pelo córtex frontal para raciocinar, também nos isenta da responsabilidade pelas consequências. Especialmente quando as perguntas envolvem escolhas ou previsões do futuro.

Assim surgiram as deidades. E a partir delas, seus (geralmente) pretensos arautos. Videntes, vates, oráculos e afins, todos se dizendo emissários dos deuses. Afinal, de que serve um deus se não há como se comunicar com ele?

 

Previsões para todos os gostos

É interessante constatar que os videntes mais famosos da história faziam previsões através de enigmas. A estratégia os valorizava e transferia para o consulente a responsabilidade sobre sua interpretação. Assim, quando o desfecho era o esperado, o mérito era do vaticinador; caso contrário, a falha residia no decifrador. Os exemplos são muitos:

– Nostradamus, no século XVI, alegava ter visões do futuro. Escreveu o livro As Profecias, as quais estranhamente só eram – e continuam sendo – decifradas através de controversas adaptações a fatos já ocorridos. Talvez a física quântica explique…

– O Oráculo de Delfos era famoso por suas respostas ambíguas. A mais conhecida, “Ibis redibis nunquam in bello peribis”, foi interpretada pelo guerreiro consulente: “Vais vens. Nunca na guerra pereces.” Ao não retornar da batalha, a pitonisa do templo corrigiu: “Vais vens nunca. Na guerra pereces.” Gramática, oras a gramática…

– Cassandra de Troia tinha realmente o dom de prever o futuro. Entretanto, ninguém acreditava nela. Talvez porque fossem previsões sempre catastróficas. Parece que evitar incômodos não era exclusividade dos videntes…

 

A verdade diante dos olhos

Não é coincidência que a grande reação da humanidade à submissão a crendices e superstições tenha se dado no assim chamado Século das Luzes. Inserido no Renascimento, o Iluminismo (século XVII) contrapôs-se à Idade das Trevas, dando protagonismo ao ser humano e promovendo o pensamento racional crítico, o espírito de questionamento e a diversidade de ideias e de abordagens.

 

Parece familiar?

Excessivamente. Quatro séculos se passaram e tudo indica que não evoluímos um milímetro em relação àquele movimento. Não nos ocorreu que a razão, pedra angular do Iluminismo, não só espanta fantasmas: ela, na prática, se opõe à intuição, à criatividade, à curiosidade e à contribuição emocional.

Até o século XIX, o demérito dessas competências sutis fazia sentido pois, além das habilidades práticas serem vitais para a sobrevivência, a intuição, criatividade e curiosidade eram usualmente consideradas heréticas, na melhor das hipóteses.

Entretanto, a concepção de que a evolução humana em qualquer área possa prescindir das habilidades não racionais, não resiste à análise mais superficial. Da Vinci que o diga.

É fácil constatar como este texto se conecta a conselhos e conselheiros.

Em uma época em que as competências técnicas estão sendo gradativamente exercidas por inteligências artificiais, do que precisam os conselheiros para evoluírem muito além da razão?

Apolo deu a resposta há mais de dois mil anos: Nosce Te Ipsum –  “Conhece-te a ti mesmo”.

E se não acreditamos em deuses, podemos ao menos confiar em Sócrates que, ao retornar de Delfos, completou a frase: “Conhece-te a ti mesmo e assim, conhecerás o universo e os deuses”.

 

Este artigo foi produzido a partir da 6ª edição do IBGC Dialoga que ocorreu no período de agosto a dezembro de 2023. A iniciativa se baseia na formação de grupos, a fim de criar espaços de debate entre pares, trazendo temas da governança corporativa em setores específicos. Nessa última edição, os grupos foram organizados nas temáticas: Sociedade 5.0 e Futuro do Trabalho; Startups; Comunicação na Governança; Conselhos em Empresas Familiares; Gestão de Riscos; Inovação; e Tecnologia.

Sobre a autora: Cris Bianchi foi instrutora especialista do Dialoga – Empresas de Controle Familiar, na edição.

Fonte: IBGC